Não metrificando a vida
Em uma das diversas vezes que reiniciei a musculação, resolvi que iria usar um aplicativo para registrar meu treino e acompanhar meu desenvolvimento.
Marcava os exercícios, anotava o número de repetições e o peso utilizado. Com isso, o aplicativo me entregava estatísticas sobre meu progresso e me dava uma meta a ser batida na próxima ida à academia.
Em dias alternados, eu corria na esteira. Na própria máquina eu via meu tempo e a distância percorrida. Registrava isso também no mesmo aplicativo da musculação.
Mas, quando resolvi trocar a esteira pelas ruas, senti a necessidade de usar um aplicativo espefífico. Nele eu tinha tempo, distância, elevação e o incentivo de bater meus próprios recordes em cada percurso.
Para o lazer não era diferente. Rede social para registrar os filmes assistidos e os que eu gostaria de ver, caixas de seleção me lembravam dos livros que eu gostaria de ler e o meu leitor digital me mostrava o progresso da minha leitura atual.
Finalmente, percebi que meu incentivo para as atividades físicas e o lazer era cumprir metas e não as práticas em si. As listas, as barras de progresso e os lembretes me deixavam ansioso.
Minha preocupação era marcar as caixinhas e concluir as tarefas. Quando pulava um dia de treino ou não seguia a ordem correta da lista de filmes, sentia que havia falhado e a necessidade de compensar.
Hoje, mantenho apenas a lista de livros e filmes, mas leio ou assisto o que dá vontade e não tenho pressa para concluí-lás. Ainda vou na academia e corro, porém não marco meus números e nem estabeleço metas.
Sinto que isso me trouxe de volta o prazer de fazer minhas atividades apenas por mim e não para deixar registrado no meu imaginário livro de tarefas a serem concluídas.