Ser pedestre é ofensivo

Eu ando muito a pé. Na verdade, passo mais tempo dentro do ônibus, mas caminho entre meus destinos e os pontos de parada. Depois que comecei a dirigir, passei a prestar mais atenção no trânsito.

E algo que chamou a minha atenção nos últimos dias foi a falta de estrutura para o pedestre na cidade onde moro. Com exceção dos horários de pico, os veículos fluem pelas vias sem atrito.

Já eu, preciso vencer calçadas irregulares, esperar a autorização dos semáforos (quando tem), correr para conseguir atravessar as ruas e fazer “jogadas de xadrez” para cruzar avenidas.

Pra ir do meu trabalho até o ponto de ônibus, eu teria que fazer um caminho totalmente contraintuitivo se quisesse utilizar as faixas de pedestre e contar com o auxílio do semáforo. Como a maioria das pessoas, simplesmente atravesso a avenida correndo.

Além de todos os problemas e dificuldades que a cidade nos oferece, sinto que ser pedestre é uma ofensa para quem está de carro. Tenho a impressão de que os motoristas não suportam ver um pedestre na sua frente.

A primeira reação é sempre a buzina, independentemente de quem “está certo”. Pisou na rua para atravessar? Cuidado! Eles vão acelerar e ainda te xingar por quase terem te atropelado.

Li uma pesquisa esses dias de que a maioria das pessoas vão para o trabalho de carro ou moto. Apesar da implementação de faixas exclusivas para o transporte público, número de ônibus maiores, o trajeto até a parada continua perigoso. Acho que isso é uma grande influência na compra de um veículo.

Ontem eu recebi um vídeo de uma mulher andando de bicicleta sendo atropelada no meio da rua. Ela está pedalando no centro da via e um cidadão, sem motivo aparente, a atropela. Não foi um acidente. Dá para notar o veículo se aproximando lentamente com o intuito de derrubá-la.

Nos comentários, todos parabenizavam o motorista por ter feito o que, aparentemente, muitos tem vontade. Isso me lembrou a animação da Disney que o Pateta vira um monstro quando entra dentro do carro.

Acho que as pessoas perdem toda a humanidade quando entram no veículo e se sentem parte da máquina. Eles não enxergam o outro como uma pessoa, mas, talvez, um obstáculo a ser vencido.