Cidade dos mortos
No último domingo, participei de um passeio inusitado. O grupo Cidade dos Mortos organizou uma visitação ao Cemitério da Saudade, aqui em Ribeirão Preto, e eu, curioso que sou, não podia perder a oportunidade.
A história da minha região é um tema que eu já havia explorado por meio de livros e visitas a locais históricos, inclusive já havia andado pelo Cemitério da Saudade atrás dos jazigos de personalidades da minha cidade.
A ideia do grupo é oferecer conhecimento sobre nossa cidade a partir da perspectiva das pessoas que moraram por aqui no período da fundação dela. Já ficou curioso para saber quem eram aquelas pessoas que deram nome às ruas? Pois é.
Um fato engraçado é que todos para quem eu contei sobre isso acharam estranho. A morte é a única certeza da vida e, ainda assim, a maioria das pessoas evita falar sobre isso. Visitar um cemitério, então, nem pensar!
Conosco, havia um senhor, Luiz Roberto Rossi de Lucca, que já havia preparado seu jazigo com foto e tudo. Por conta disso, ele é considerado uma espécie de celebridade pelos funcionários do cemitério. Toda vez que ele vai limpar sua lápide, as pessoas acham estranho ver a mesma pessoa da foto do lado de fora.
Lembrei de quando eu comprei jazigo (em outro cemitério, sem as lápides enormes). Minha tia ficou muito doente e eu resolvi me preparar para o curso natural da vida. Muitas pessoas disseram que eu estava pensando no pior, mas eu só queria diminuir os problemas quando o inevitável acontecesse.
Nessa minha busca pelo jazigo, que eu financiei em 48 vezes e tinha espaço para três pessoas, descobri que poucas pessoas se preparam para a morte e o problema acaba ficando com os parentes vivos que, além de toda a tristeza que envolve a perda de um ente querido, têm que lidar com a burocracia do óbito e os custos elevados do velório e sepultamento.
Abaixo, destaco fatos que me chamaram a atenção e mostro fotos que fiz durante o passeio.
O primeiro cemitério público de Ribeirão Preto foi construído onde hoje está instalada a Praça XV de Novembro. Lá havia uma capela que, mais tarde, se tornou a igreja matriz da cidade.
Quando ele não comportou mais sepultamentos, inauguraram o segundo cemitério, onde hoje é a Praça da Bandeira, espaço da Catedral Metropolitana.
O último local de enterros públicos antes da criação do Cemitério da Saudade era situado na região da Praça 7 de Setembro, mais ou menos entre a Sorveteria do Jô e o Hotel Taiwan Inn.
Finalmente, em 1893, foi inaugurado o Cemitério da Saudade. A avenida, que hoje tem o mesmo nome do cemitério, se chamava Saldanha Marinho. Já houve mais de 140 mil sepultamentos desde então e algumas expansões.
Não lembro exatamente se transferiram as ossadas de um local para o outro, mas abaixo tem a foto do primeiro jazigo do Cemitério da Saudade, com os restos mortais de senhora que estava sepultada no cemitério da 7 de Setembro.


{alt=”Mulher chorando é a figura da desolação”}
{alt=”Ossuaário de Euclydes de Araújo Senna, El Principe Negro”}

{alt=”Obelisco da Sociedade Dante Alighieri em homenagem aos italianos de Ribeirão que lutaram na Primeira Guerra Mundial.”}

Se utilizava muito mármore carrara, hoje raro, quase sempre esculpido por Barberi, como esse acima. Jazigos enormes eram uma forma de perpetuar a imagem da burguesia, representando sua requiza e poder
A Dona Iría foi acusada de ser mandante do Crime de Cravinhos, em 1920, e não está enterrada na lápide que construiu porque se exilou em São Paulo após a repercussão do assassinato.






François Cassoulet, empreendedor da diversão noturna, administrador de teatros, cafés e cabarés, e prercursor do desfile de carnaval na cidade, conhecido por trazer mulheres da europa, conhecidas como polacas, para entreter os barões do café, foi enterrado neste túmulo coletivo.
Com o início da Primeira Guerra Mundial, a importação e exportação do café, que movia a economia da cidade, foi abalada e os grandes fazendeiros e seus funcionários diminuiram os gastos com a vida noturna, levando Cassoulet à falência.
O ciclo do café, planta que fez a fama da cidade, durou pouco em comparação com o legado arquitetônico e cultural deixado. O médico Luiz Pereira Barreto trouxe o café Bourbon para Ribeirão Preto por volta de
- A variedade teve mais resistência e se adaptou rapidamente ao clima da cidade, trazendo desenvolvimento para região e enriquecendo os fazendeiros da época com a exportação.
O Ciclo se encerrou por volta de 1930, após a Crise da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Muitas casas noturnas fecharam, o Teatro Carlos Gomes, administrado por Cassoulet, foi demolido, e a estrada de ferro que foi responsável por trazer milhares de trabalhadores para a cidade e escoar toneladas de café foi, aos poucos, se tornando obsoleta.

{alt=”Lápide de Nicacio de Souza, criador da primeira empresa de serviços funerários em Ribeirão Preto, em 1918”}
{alt=”Alfredo Codeixa, vice-prefeito e, posteriormente, prefeito em 1952 e 1960”}
{alt=”Capela”}
{alt=”Túmulo da Sinhá e Quito Junqueira”}
A arte na lápide representa o trabalho agrário, ofício que fez a fortuna de ambos. Há uma discussão sobre o uso de trabalho escravo em suas fazendas, sendo reconhecido que, na época, existia um misto de trabalhadores africanos escravizados e imigrantes italianos nas fazendas da região.
