Seja improvável

Há muitos anos, durante meu período de faculdade, eu estagiei em uma revista local. No final do ano, o pessoal da redação resolveu fazer um "amigo caneca", ou seja, um amigo oculto, mas todos os presentes deveriam ser canecas.

A ideia foi muito boa. Nesse tipo de confraternização, há sempre uma disparidade muito grande entre os presentes, mesmo quando há limite de valor a ser gasto.

Existe aquela pessoa que dedica um imenso esforço para escolher um presente que combine com a personalidade da pessoa que irá ganhar, como também há o cidadão que deixa pra ultima hora e entrega qualquer lembrancinha.

No amigo caneca, todos devem dar - isso mesmo que você pensou - canecas. Não havia limite de valor, desde que fosse uma caneca.

Eu ganhei uma caneca que tinha o formato da cabeça do Finn, do desenho Hora da Aventura. Não lembro da justificativa de quem me presenteou, mas eu gostei, apesar de não ter assistido o programa (achei a caneca muito grande e desengonçada, mas foi útil como "porta treco" até ela quebrar).

A pessoa com quem fui sorteado para presentear foi um rapaz apaixonado pela Disney. Usava roupas da Disney, assistia programas e filmes da Disney, bebia água em uma garrafa da Disney e tomava café em uma caneca da... Disney (alguns meses depois ele pediria demissão pra ser monitor no Disneyworld em Orlando, EUA)

Presentea-lo seria muito fácil, e foi também o que eu ouvi dos meus colegas de redação. "É só comprar uma caneca da Disney", me diziam em todas as conversas sobre esse amigo caneca.

Como eu já sabia qual seria o presente, deixei pra última hora, como todo bom brasileiro que se preze. Entrei em uma loja qualquer e procurei canecas com personagens da Disney. A mais barata seria a minha escolha. Afinal, eu era estagiário.

Até que vi uma coleção de canecas de marcas de produtos clássicos dos supermercados e das despensas do Brasil. Lembro de duas: do Leite Moça e a da Maizenq, que foi a que eu escolhi.

Quando chegou minha hora de revelar meu presenteado e presente, fiz o suspense de sempre, contei uma historinha, citei que "parecia fácil o presente, mas a obviedade acabou tornando mais difícil". De qualquer forma, todos esperavam uma caneca de Disney até que, pra surpresa de todos, revelei a caneca com o desenho da caixa da Maizena embrulhado em um jornal (lembram que deixei pra última hora? Pois é).

Enquanto desenrolava o jornal da caneca, o rapaz fingia surpresa, como se não imaginasse o que seria, mas, com a revelação, veio uma surpresa genuína e uma história que marcou a todos os presentes com a quebra da expectativa.

Por isso, sempre que puder, surpreenda. Quebre as expectativas das pessoas. Mostre que você tem cartas na manga.

Seja alguém improvável.