Pioneiro, Rui Muleque ainda carrega a essência do skate
Encontrei com Rui Muleque na Switch Skate Park. O campeão brasileiro de 89, hoje, dá aulas de skate, mas as canelas machucadas revelam a experiência de um dos pioneiros do esporte no Brasil. "Eu cuido da pista e dou aulas particulares", começa Muleque.
Carismático, Rui tem muita história para contar. Começou a andar de skate em 1982 e fez parte de toda a evolução do esporte, sendo o seu pro model o primeiro shape resinado do Brasil. Ainda usa o modelo "tubarão", um Lifestyle Rui Muleque Stage IV.
Porém, por conta de toda uma carreira em cima do carrinho, deu uma pausa de um ano para se recuperar de uma cirurgia no tornozelo. "Operei o meu tornozelo por conta de artrose, que vem recorrente de torcer o pé nos anos 80 sem cuidar", comenta.
Uma grande diferença para os atletas de hoje, ressalta Rui. "A galera, hoje, faz funcional, faz fortalecimento. Naquela época, a gente não tinha essas informações. Então, você torcia e já continuava andando ou parava um dia, dois, depois, voltava".
Mesmo com uma prótese, consegue andar no skate com a confidência de 40 anos de experiência. "A cirurgia foi em fevereiro, então acredito que em fevereiro do ano que vem devo estar voltando com força total pro rolê", coloca Rui.
Nesses anos, passou por Portugal e Alemanha, além de inúmeras apresentações pelo Brasil. "A gente foi destaque. O Brasil foi destaque no mundial da Alemanha", relembra. Mesmo sendo a primeira vez que o país levava o skate nacional para o exterior.
"Quando a gente foi pra Alemanha, o pessoal vinha perguntar 'mas como que vocês andam de skate lá? Tem asfalto, tem pista?' E falava sério, não falava zoando. Ninguém tinha ouvido falar do Brasil" cita.
Mas, quando começou a andar, skate não era considerado esporte e era muito marginalizado. Passou pela época da repressão, chegando ao ponto do skate ser proibido no município de São Paulo. Hoje, comemora.
"A gente viveu uma repressão muito grande nessa época aí. Hoje, você vê os pais levando os filhos para fazer aula de skate e é muito gratificante. E o pessoal reconhecendo o skate como esporte, também. Isso não tem preço para quem é lá de trás" diz.
Conhecedor da cultura do skate como ninguém, Rui explica. "Skate é um estilo de vida. Então, você vive o skate. Você dorme e acorda falando de skate, pensando em skate. Tem toda uma gíria, uma vestimenta, tem todo um comportamento, a galera..." finaliza.
E nos anos 90 boa parte dessa cultura quase foi perdida com a chegada do Plano Collor. "Da noite pro dia, as marcas já não tinham mais dinheiro pra pagar os atletas. Muitas marcas fecharam. Não teve circuito, não teve campeonato de skate, não teve mais demonstração", lembra.
Muleque quase parou de andar de skate com esse duro golpe, mas, incentivado pelo seu patrocinador, conseguiu se manter no meio. Se mudou para Ribeirão Preto e abriu uma loja voltada para artigos de skate, onde passou 9 anos.
Depois de um hiato e a volta para São Paulo, retornou a Ribeirão Preto e, desde 2010, organiza eventos, campeonatos e dá aulas de skate. "Voltei pra São Paulo, fui trabalhar com TV. Trabalhei 10 anos em televisão" repassa sobre sua fase como cinegrafista.
Apesar dos altos e baixos, não se arrepende de nenhum momento e não tem ressentimentos. "Eu consegui me manter no skate, consegui montar minha loja de skate, consegui fazer grandes campeonatos. Agradeço por tudo que aconteceu na minha vida" finaliza.